Há pouco senti uma saudade enorme da sua presença sempre tão
nítida em meus dias de solidão, então recordei que faz um ano que você me
apareceu pela primeira vez em um agonizante sonho, no qual o medo me fez ignorar.
Mas você, querida amiga longiguia, não permitiu deixar a lembrança de sua alma
sair dos meus pensamentos. Me seguia nas noites sem lua, corria pelas calçadas
quebrando o silêncio noturno, e dançava macabramente uma melodia fúnebre.
Tive medo quando o sino tocava doze badaladas, e logo em
seguida meu leito esfriava com tua presença sentida em um aroma de rosas
brancas, igual aquela que deixaste sobre minha cama como prova de tua
existência. Meu corpo tremia, e minhas palavras pareciam mergulhar nas águas
negras que um dia me tirou a vida, e tudo por que você, amiga longuigua, era
presença sentida em meus dias solitários.
E agora por onde anda a menina de vestes brancas e face
triste que por meses era o temor do meu coração? Pergunto-me se esta a
cantarolar em algum campo distante de onde estou e se sabe da falta que sinto
de tua presença, ou por que não voltas a residir em meu leito acompanhando-me
nesta inútil existência que me rouba o amargo aroma da morte. Peço em suplicio
que volte a sua antiga moradia de um ano atrás, e que traga juntamente consigo
a minha alma já esquecida.
Beatrice Portinari.

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